A narcisista

por Irene Matiatos, Ph.D.

“O aplauso é o estímulo das mentes nobres, e o fim e meta das mentes fracas.“ — Charles Caleb Colton

O comportamento abusivo nas pessoas pode ser apenas um de muitos problemas subjacentes. As desordens de personalidade, ou suas contrapartes mais “suaves” (por ex., uma “personalidade forte”) são só mais um ramo onde pode ser pesquisado suas causas. Este artigo tenta ajudar o leitor a entender a mente de uma mulher com transtorno de personalidade narcisista (TPN), ou que tenha características narcisistas.

Como o homem narcisista, tais mulheres abrigam crenças subjacentes irracionais profundas e indiscutíveis, que afetam seus sentimentos e comportamento. Muitas dessas crenças nunca são questionadas e pouco racionalizadas, se muito. Todos nós temos nossas crenças irracionais, porém os portadores de transtornos de personalidade abrigam sistemas de crenças profundamente enraizados e entrelaçados.

Uma pessoa encantadora

Dana é uma bela mulher com seus 23 anos de idade. Linda por fora, ela tem uma habilidade quase sobrenatural de se apresentar extremamente bem para o público que ela quer impressionar. Também tem a habilidade de fazer as pessoas se sentirem muito bem. Ela vai te impressionar! E nada do que você pode fazer parece suficiente para agradar essa deusa. Ela irá continuar a te recompensar seu bom comportamento enquanto precisar de você. Afinal, é muito cansativo ficar “ligada” o tempo inteiro.

Se ela atingiu seu objetivo e você não tem mais utilidade para ela, ela vai se preocupar cada vez menos em parecer perfeita para você. Na maioria das vezes, Dana nem tem a intenção de ser grossa, mas ela acaba “relaxando”, começando a ser mais “ela mesmo” e começa a ficar cada vez mais na dela ou mesmo um pouco ignorante.

Uma narcisista típica

O problema é que a única pessoa que importa para Dana é ela mesma. Você não passa de um objeto que proverá a ela o que ela precisará naquele momento da vida dela: amor, admiração, dinheiro, encorajamento, apoio moral, etc. Enquanto ela disfarça que se importa com isso, e as vezes até quer se importar, a verdade é que não irá. O mundo gira em torno dela.

Ela esconde esse fato muito bem da maioria; especialmente daqueles que tem algum significado para ela (marido, pais, chefes, etc). Muitos dessas pessoas próximas a ela ficariam chocados ao ouvir isso, e na verdade achariam que você está louco! Dana é a típica narcisista de bela aparência. Ela se escora em sua beleza e em seu charme. Ela se sente bem com isso enquanto ela esteja acima do que ela considera “concorrência”.

Poucos amigos de verdade

Pais são pais e geralmente amam de forma incondicional. Mas amigos e conhecidos não. Assim sendo, enquanto todos que conhecem Dana num primeiro momento a adoram, quanto mais eles a conhecem, menos eles querem a companhia dela. Exceto, obviamente, homens jovens, muito interessados em sua companhia. Além de algum amigo de infância que não possui auto estima, ela não tem amigos. Há os conhecidos e as pessoas que compartilham o ambiente com ela que até a chamam de “amiga”, mas só por conveniência.

Ela explica este problema racionalizando algum problema que seus conhecidos tem e ela desaprova. Aquele ali usa drogas, o outro lá não dá pra confiar e aquele lá tem inveja dela, etc. Ela não reconhece que as pessoas não querem ser amigas dela, ou não terem interesse sexual nela, não ir com a cara dela, etc, advém do fato de como ela trata essas pessoas!

Sou a melhor!

Ela nunca estará contente a não ser que ela se sinta acima de todo mundo, especialmente outras mulheres. Ela acredita que tem o rosto mais belo, o cabelo mais sedoso e o corpo mais maravilhoso de todos – que ela ostenta usando suas roupas justas e sexys. Ela estará sempre bem vestida, mesmo em ocasiões informais. Mesmo dando a impressão que sua aparência é mero fruto do acaso, um olhar treinado pode discernir as horas que ela gastou testando figurinos, fazendo parecer que ela não gastou tempo demais naquilo, etc.  

Toda qualidade sua, ela faz questão de esfregar na cara dos outros. Em um fim de semana qualquer, convidada para ir na casa de seus novos amigos que moram numa casa humilde, ela consegue arrumar um jeito de desviar da rota só para poder passar na casa luxuosa de seus pais – apenas para se mostrar – achando que assim está mostrando sua superioridade.

Obviamente, ela nunca admitiria que foi esta a razão dela passar ali. Ela sempre vai dizer algo como “é o aniversário do meu pai” ou “esqueci algo importante aqui que tinha que pegar”. Jamais dizer a verdade, como “vim aqui apenas para impressionar vocês”.  

Inveja

A inveja é um problema sério. Sua percepção de inveja está tão longe da sua consciência quanto o Polo Norte está do Polo Sul. Enquanto ela não faz ideia do quanto ela é invejosa, é facilmente perceptível para qualquer pessoa mais observadora.  

Certa vez, Dana não deu a sua prima um presente de aniversário. Enquanto sua prima vivia dando presentes caros e bacanas para ela, Dana não sabe explicar porque nunca deu nada para ela. Quando é pressionada sobre o assunto, ela dá um monte de desculpas esfarrapadas.  

“Eu fiz um acordo com meus amigos de nunca trocarmos presentes”

“Você por acaso combinou isso com minha prima?”

“Não, eu não dou presentes. Mas vamos almoçar num restaurante. Eu pago!”  

E Dana acaba pagando nada e ainda faz com que sua prima pague o almoço dela e de quebra até do namorado que ela leva a tiracolo!   O problema está na prima dela, que teve tudo na vida. E é bonita, e teve boas notas na escola – coisa que Dana nunca conseguiu. Sua prima também tem um namorado rico que dá tudo pra ela. Você já entendeu. Quando questionada a queima roupa do porque ela tem inveja de sua prima, ela responde com uma risada afetada “Invejosa, eu? Porque teria inveja dela?”  

O preço que ela paga

Parte do preço que Dana paga por viver manipulando os outros é o cansaço que estar sempre “ligada” gera na pessoa. Quando pega de guarda baixa, ela mostra sua verdadeira face: impaciente, baixa, arrogante e indulgente e seu crônico mal humor.  Vendedores, namorados mais insistentes e todas aquelas pessoas sem muito importância para ela e que toleram isso serão suas vítimas insuspeitas. E isto é feito de forma sutil.

Por exemplo, certa vez ela entra na casa ultra limpa de sua mãe e nota uma folhinha caída no chão brilhante da casa. Ao invés de simplesmente recolher a folha, ela exclama “Mas o que é isso?”. Sua mãe, quase que de pronto, larga o que está fazendo e vai recolher a folhinha aos seus pés de sua filha.  

O lobo em pele de cordeiro

Sendo uma mentirosa compulsiva que precisa enganar os outros para poder manter as aparências, Dana não é uma pessoa cruel ou desagradável. Esta jovem realmente quer fazer as coisas certas . Enquanto ela tem uma satisfação imediata com sua crueldade, quando forçada a encarar o que fez, ela não fica contente por ter maltratado os outros. Afinal, um mal comportamento desses arranha sua imagem de boa moça! Quando a realidade finalmente a acerta e ela é confrontada com suas ações, ela fica brava consigo mesmo, até mesmo desabando em lágrimas.  

Por pouco tempo.  

Logo tudo isso passa. O tempo curará tudo isso ou ela joga a culpa em outra pessoa.  

Quando ela apresenta a sua versão enviesada da história, parece verídico. Até alguém notar que nada parece ser culpa dela. Sempre há alguém ou alguma coisa que é culpada – ou o assunto é mudado de forma drástica. Não importa o quanto ela jure que irá mudar, ela não irá.   Ela não irá porque não quer.

O motivo?

Ela não irá mudar porque ela escolheu não encarar a verdade. Ela não aceita que sua natureza é extremamente falha e sombria. Ela não aceita que não é mais especial, mais única e mais perfeita do que ninguém.

Impossível!

Porque não desfrutar de suas muitas qualidades e  simplesmente aceitar e contornar o impacto de seus muitos defeitos?

Ela crê piamente que segue regras especiais, e não está afim de largar o osso tão facilmente. Ela até agradece que os demais não percebem que podem ser tão especiais quanto ela. Desistir deste pedestal é inaceitável. Não é algo bom.

Mas como?

Tenha em mente que o narcisismo é um padrão de comportamento que se desenvolve durante toda a vida da pessoa, começando da infância e acredita-se que tem uma origem patológica. Se o engodo e o disfarce lhe proporcionou uma vida de luxos e facilidades, pra quê mexer nisso? Não é melhor aproveitar o momento apenas? Para quê trabalhar se você ganha o suficiente para viver? Melhor gastar essa energia cultivando uma imagem impoluta. Isso dá lucro mais rápido.  

Afinal, a única coisa que importa é si mesma, sua integridade e suas relações. Todas coisas que ela nunca irá entender completamente, mas ela pensa que entende muito bem.  

Confiabilidade

Com todos esses problemas, a mulher (ou homem) narcisista não é confiável. Eles só são confiáveis quando isso os interessa. Então, na melhor das hipóteses, sua confiança é inconsistente. Como um agressor, seu temperamento é imprevisível. Quando frustrada, a energia requerida para mantê-la “ligada” é grande demais. Sua frustração acaba escapando – e esparrama em qualquer um azarado o suficiente que esteja por perto.

Resumindo

Para se sentir completa, uma mulher como Dana precisa ser o centro das atenções, ser a mais bonita, a mais bem de vida, a mais talentosa, a melhor em tudo. Ela cultiva outras pessoas ao redor que irão ser manipulados por ela para admirá-la, adorá-la, inflar seu ego, amá-la, e não olhar para seus defeitos e mentiras.  

Se ela é questionada, ela se distancia. Esta simples, porém efetiva, técnica invariavelmente afeta os codependentes em sua vida. No ato, ela se esconde e deixa o assunto morrer ou deixem que a persigam, achando que eles é que fizeram algo errado, preocupando-se em não estar do lado de pessoas tão horríveis. Caso um admirador realmente caia na sua conversa e insiste em conquistá-la, ele é tratado com desdém. Tais pessoas representam o que ela mais odeia: apenas os fracos e comuns permitem serem pisados.

Resumidamente, ela é uma mulher muito bonita, charmosa e extremamente manipuladora, que não nutre a menor consideração pelos outros além daqueles que estão em posição para provê-la com tudo o que seu narcisismo precisar.  

Conhece alguma Dana? Ou pior, algum homem que caiu de amores por um tipo desses? (que Deus o ajude…)    

fonte: http://www.dvmen.org/dv-140.htm#pgfId-1459317

2 comentários

  1. Descreve perfeitamente a psicopata com quem eu me casei e me ferrei!

    1. O pior que eu também tenho um demônio desse na vida e to sofrendo pra mandar embora.

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