Uma fábula indiana

 
* fábula retirada do épico indiano “Dashakumaracharita”, que nos conta as aventuras de 10 jovens hindus de classe alta.

Assim que sai da água, carregando uma grande raiz em meus ombros, eu vejo de pé em um banco de areia um terrível Rakshas em forma humana. Ele grita para mim num tom colérico: “Quem é você? De onde você veio? O que faz aqui, destruindo minhas flores?”

Sem demonstrar medo, eu ando audaciosamente em sua direção e respondo: “Eu sou um brâmane, que já enfrentou muitos perigos. Já fui jogado no mar por um traidor, resgatado por um navio mercante e após isso atacado por piratas; e agora, depois de conquistá-los, fomos colocados nesta ilha em busca de água. Acabei de tomar um banho muito bom, e lhe desejo um bom dia.”

“Pare!”, ele diz. “Você não vai se safar tão fácil. Mas você me parece ser um homem corajoso, e por isso eu te darei uma chance. Irei te fazer quatro perguntas. Se conseguir respondê-las, estará livre; caso contrário, eu irei devorá-lo imediatamente.”

“Muito bem,” respondi; “estou pronto para ouvir suas perguntas.” Então ele começou:

“O que é a crueldade?”

“O coração de uma mulher imoral.”

“O que é mais vantajoso para um chefe de família?”

“Boas virtudes em uma esposa.”

“o que é o amor?”

“A imaginação.”

“O que melhor cumpre as coisas difíceis?”

“A astúcia. Dhumini, Gomini, Ratnavati e Nitambavati,” acrescentei, “são exemplos do que acabei de falar.”

“Diga-me,” ele falou, “quem são essas pessoas, e como eles podem provar a verdade em suas respostas?”

“Mas é claro,” respondi; “você poderá julgar por si só.”

“Havia na terra de Trigarta três irmãos – todos ricos – que tinham muitas esposas, servos e escravos, e numerosos rebanhos. No tempo deles aconteceu uma grande seca; nenhuma chuva caiu durante anos; os riachos e fontes secaram; as lagoas se transformaram em lama e o leito dos rios estavam praticamente secos, plantas queimavam ao sol, as arvores morriam; toda a alegria e festividade acabaram; bandos de ladrões andavam pelos campos; os mortos permaneciam sem ser enterrados ou cremados, e seus corpos apodreciam pelos campos. Por fim, a fome era tão grande que os homens começaram a se devorarem. Os três irmãos, usando suas grandes riquezas, conseguiram resistir por algum tempo; porém quando suas reservas de milho e arroz foram consumidas, e todo seu rebanho morto, eles, como todos os outros, apelaram ao canibalismo. Primeiramente, eles mataram e devoraram seus escravos; depois suas concubinas e filhos, até que só sobraram os três e suas três respectivas esposas favoritas. A fome continuava, e por fim restou devorar um deles, e sortearam o que seria morto primeiro. O escolhido foi Dhumini, a esposa do irmão mais novo dos três. que, incapaz de enfrentar a realidade de ter que devorá-la, fugiu com ela no meio da noite. Depois de muito andar, até quase a exaustão, eles chegaram a uma grande floresta, onde acharam um poço com água e muitas frutas e raízes, além de cervos e outros animais, no qual eles podiam viver sem muita dificuldade; e resolveram então construir uma cabana nessa floresta.

“Um dia quando o marido de Dhumini saiu para caçar, encontrou um homem que foi tratado de forma cruel por bandidos; eles cortaram suas mãos, pés e o nariz e o deixaram para morrer. Tendo compaixão pelo pobre coitado, ele tratou suas feridas o melhor que podia e o levou com muita dificuldade para sua cabana. Lá, ele e sua esposa trataram dele até suas feridas curarem, e cuidaram dele depois disso.

“Agora veja a depravação de uma mulher, a tal Dhumini se apaixonou pelo mutilado e decidiu que ficaria com ele, quer ele quisesse ou não.

“Um dia seu marido voltou da caçada, cansado e com sede, e pediu água a ela. Ela respondeu: ‘estou com muita dor de cabeça, você terá que ir lá fora e buscar para você.’ Então, andando o mais sorrateiramente que podia, ela foi atrás dele e esperou que ele ficasse a beira do poço, e o empurrou para dentro do buraco.

“Assim, ela achava, tendo se livrado do marido, ela pegou o homem mutilado e o carregou até eles chegarem a um lugar habitado, onde não havia fome, e dizia a todos que aquele homem era seu marido, e que ele foi mutilado daquela forma por um inimigo rancoroso.

“Ela então virou alvo de muita compaixão e louvor pela devoção ao seu marido, e o rei daquela terra a presenteou com uma pequena pensão na qual ela pode viver na cidade de Avanti. Enquanto isso, seu verdadeiro marido conseguiu sair do poço e vagou por um longo tempo, não sabendo aonde sua esposa foi parar. Por fim, ele chegou em Avanti em grande aflição, e estava mendigando por comida quando sua antiga esposa o viu. Indo ao rei, ela disse ‘foi aquele maldito que mutilou meu marido, eu acabei de vê-lo mendigando.’

“E então ele foi imediatamente preso, e sendo ignoradas suas alegações de inocência, foi condenado à morte, e estava a caminho da execução.

“Com quase nenhuma esperança de ser salvo, ele disse ao carrasco, “eu fui condenado pela evidência de apenas uma testemunha; deixe o homem que dizem que mutilei ser questionado; se ele confirmar que sou culpado, então eu realmente mereço morrer.’

“O carrasco disse, ‘Talvez ele seja realmente inocente, alguns minutos de atraso não farão mal,’ e o levou até a casa de sua antiga esposa. E lá, o homem mutilado, com lágrimas nos olhos, contou sobre a forma generosa como foi tratado por aquele que era supostamente o criminoso e da perversidade da mulher que forçou a viver com ela como seu marido.

“Assim sendo, a execução prosseguiu. E o rei, sabendo de toda a história, ordenou que ela fosse cortada em pedaços e dada aos cães, e mostrou muita boa vontade e compaixão ao marido dela.

“Como disse antes, não há nada tão cruel quanto o coração de uma mulher imoral.

Notas:

Rakshas: demônio, na tradição indiana

Brâmane: é um membro da casta sacerdotal, a primeira do Varṇaśrama dharma ou Varṇa vyavastha, a tradicional divisão em quatro castas (varṇa) da sociedade hinduísta.



 

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