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fev 12 2014

[Os Doze Trabalhos] O Quinto Trabalho: Os Estábulos de Augias

estábulospor DiomedesRJ

Hércules mal havia pisado novamente em Micenas após escolher um local de repouso para o Javali do Erimanto, e já encontrava o Arauto de Euristeu às portas do reino, com mais um Trabalho para ser cumprido.

No reino de Élida, o rei Augias, um semideus como Hércules mas Filho de Hélios (o Deus-Sol), tinha desde sua infância recebido de seu pai um divino presente, um rebanho cujo gado após chegar a maturidade, não mais envelhecia ou morria. O gado tinha crescido e sido criado dentro de um enorme estábulo, mas por desleixo do rei, não era limpo há mais de trinta anos. Como o gado não tinha parado de procriar, o estrume acumulado tinha se tornado um problema para todo o reino. Euristeu, então, o tinha enviado para que limpasse totalmente os Estábulos de Augias e livrasse o reino deste incômodo, pagando assim uma velha dívida com o reino de Élida.

Não agradou a Hércules a idéia de passar semanas imerso em estrume de animais, mas ciente que não tinha escolha, reuniu seus pertences e partiu rumo a Élida.

Euristeu assim seguia as novas ordens de Juno, que sabia que, além do trabalho ser ainda mais humilhante do que o Filho de Júpiter pensava, não teria qualquer condição de ser cumprido, não importa o quão forte ele fosse…

Muito antes de chegar a Élida, um forte odor de esterco trazido pelo vento já anunciava sua proximidade daquelas terras amaldiçoadas pela negligência daquele que devia delas cuidar. No próprio vale de Élida, Hércules percebeu ao longe o quanto o povo sofria: a terra escurecida pelo excesso de adubo, que mesmo por debaixo da terra já tomava toda a região, havia tornado a terra totalmente estéril, incapaz de sustentar qualquer vida ou alimento para seu povo.

Larga comitiva de carroças vinha em ambos os sentidos pela estrada: a que vinha, trazia alimentos diversos comprados com as riquezas de Élida, que alimentava principalmente a nobreza, e cujos restos eram servidos ao povo faminto; as que partiam, seguiam abarrotadas dos corpos dos aldeões do reino, mortos de fome e da peste disseminada pela sujeira espalhada por onde quer que se olhasse – os corpos eram atirados em largas fossas coletivas distantes, onde eram queimados para evitar a disseminação da doença.

Chegando enfim ao Palácio de Augias, Hércules compreendeu por que a miséria não havia atingido ao rei: a construção estava localizada em alto monte com um cume totalmente pedregoso, que somado a corrente de vento favorável, não permitia nem que a contaminação da água, do solo, ou do ar, atingisse a corte do Filho do Sol. Indignado com o descaso do soberano com seus súditos, mas procurando se concentrar no dever a cumprir, o Filho de Júpiter chegou até os guardas e pediu para ser anunciado ao Rei como mensageiro e servo de Euristeu, como sua situação o obrigava.

No salão ricamente decorado, o Rei Augias o esperava. Em seu trono dourado, com vários adornos recordando sua paternidade solar, o Filho de Hélios falou:

– Seja bem vindo, ó serviçal de Euristeu! O que o traz a meu glorioso domínio?

– Vim a mando de meu Senhor Euristeu para purificar teus Estábulos, Majestade – declarou o Filho de Júpiter em voz branda.

Augias se levantou sem seu sorriso confiante de antes. Encarou seriamente a Hércules e disse:

– …e qual será o preço que me exigirá por tão árdua tarefa?

Sem deixar que Hércules respondesse, o Rei continuou a falar enquanto o circundava:

– Entenda, Hércules, você não é o primeiro que vem ao meu reino desejando limpar meus estábulos. Mas todos os que vieram antes ou eram aproveitadores que queriam receber mais do que o trabalho vale, e estes eu expulsei de minhas terras, ou eram charlatões que tentaram me enganar, e seus corpos já foram queimados com os pestosos há muito tempo. Sei que você será sábio ao pedir seu pagamento pela tarefa, e que não tentará me enganar. Diga, então, Hércules, que preço me pede para limpar meus estábulos?

– Nada, Majestade – respondeu Hércules.

– Nada? Como assim, nada? – disse espantado o Rei de Élida.

Hércules recordou-se de tudo que viu no caminho até o palácio e tomou uma decisão ousada. Aprumou o corpo e falou neste momento, não com a humildade do servidor de Euristeu, mas com o brio de um filho de Deuses:

– Majestade, sou um servo, aqui estou apenas para cumprir a vontade do meu Senhor. O único pagamento que posso esperar é saber que atenderei a vontade Dele, e pelo que vi em tuas terras, terei maior satisfação ainda em cumpri-la, pois livrarei teu povo de um flagelo que lhes causa grande sofrimento – falou o semideus, voltando então a sua postura humilde novamente.

Augias se surpreendeu ao reconhecer nele uma essência divina muito superior a sua, mas se recusando a respeitar um serviçal, mesmo que ele seja filho do Rei dos Deuses, logo voltou a sua postura natural e falou:

– Ora, ora, ora… então, teu objetivo só pode ser pior ainda!

Augias saca de sua espada, aponta-a para o pescoço de Hércules e ameaça:

– É o meu trono que você quer, não é, Filho de Júpiter? Admita agora e eu lhe matarei rapidamente e sem dor!

Hércules encara a Augias com destemor e diz:

– De forma alguma, Majestade. Tudo é conforme eu disse ao Senhor.

Augias lentamente guarda sua espada, senta novamente em seu trono, e então declara:

– Faremos então desta forma, Hércules, Filho de Júpiter. Não há homem sobre a Terra que trabalhe sem exigir recompensa. Se você não a quer, eu imporei que receba uma. Assim será: limpe meus estábulos em apenas UM DIA, e lhe darei um décimo do meu gado, o gado mágico que meu pai me deu por herança. Fracasse, e será exilado. Recuse meus termos, e será exilado. Tente me enganar, e será executado, seja filho do deus que for! Você aceita?

Sem desviar os olhos de Augias, Hércules responde:

– Aceito.

– Então deixe meu palácio, servo de Euristeu, pois este lugar não foi feito para a ralé! Sua tarefa começa ao amanhecer de amanhã, sugiro que acorde cedo… agora vá! – sentenciou Augias, sinalizando com a mão que Hércules devia sair.

Quando Hércules já deixava o local, Augias ainda sentencia:

– Meu filho Fileu irá com você, semideus, para vigiá-lo e garantir que você não tentará escapar de seu dever.

Um jovem de aparência grave então deixa o lado direito do trono, e segue à frente de Hércules até a saída.

Com o palácio atrás de si, Hércules busca as proximidades dos infames estábulos, acampando no ponto mais alto que pode, para reduzir o mau odor e facilitar seu acesso ao Trabalho no amanhecer. Do alto do monte, com sua fogueira acesa, Hércules e Fileu observavam o local de seu ofício.

– Ao te enviar comigo, na verdade, meu Pai e Rei lhe facilitou a tarefa. Os bois mais agressivos protegem os estábulos e só recuam diante da Família Real – disse Fileu – mas como pretende cumprir tudo em apenas um dia, Hércules?

Hércules observa a paisagem em silêncio. No calor daquela noite, Fileu toma um balde de água e o entorna sobre a cabeça. O Filho de Júpiter olha para a água que se distancia, e então afirma:

– …na verdade, jovem Príncipe… acabo de ter uma idéia.

No raiar da manhã, Hércules e Fileu estavam em frente a construção que detinha o gado imortal. Felizmente, uma brisa ajudava a não terem contato direto com o forte odor, vindo de todas as partes, de uma camada de estrume grossa o bastante para cobrir seus pés. Os bois mais ariscos cercavam o Filho de Júpiter inquietos, mas a presença de Fileu impediria um ataque.

– E agora? – questionou Fileu.

– Mantenha os bois mais agressivos distantes dos muros dos Estábulos e de mim. E confie no que eu fizer a partir de agora – disse Hércules, se encaminhando para um dos muros.

O semideus bateu levemente no centro, como que procurando um som mais oco… e quando achou um espaço, com um potente soco abriu um rombo na parede. Com as mãos, ele removeu as pedras restantes da parede, até um arco rústico se formar ali. Na parte oposta da construção, ele fez o mesmo.

– Me aguarde aqui e se prepare para tocar os bois para longe dos muros – ordenou o Enteado de Juno, correndo para longe dos Estábulos.

Logo depois, Hércules estava diante do Rio Alfeu, que junto com o Peneu, corriam no interior da Élida.

Carregando uma enorme rocha chanfrada, ele a cravou na terra próxima ao rio, e a empurrando, formou uma vala profunda, em direção a onde estava Fileu e o gado. Repetindo o feito no segundo rio, colocou duas grandes pedras entre as valas e o curso dos rios.

Hércules retorna próximo ao filho de Augias, pouco depois do meio do dia, e grita:

– Toque o gado para longe dos Estábulos e se afaste!

Quando viu que o gado de Fileu estavam longe, as pedras dos diques foram removidas. Dois estrondos fortes foram ouvidos, e eles foram o bastante para afastar o gado que persistia próximo da construção.

Fileu sorriu a distância quando viu o resultado da construção de Hércules: uma forte torrente de água convergia para dentro dos Estábulos e em seu entorno, levando consigo todo o estrume acumulado pelas décadas.

Diluído pela água dos rios, ele foi carregado até o curso do Alfeu que alimentava parte do próprio fluxo. Quando a construção e o seu entorno ficaram livres de qualquer sinal do adubo, o Filho de Júpiter se dirigiu para próximo dos rios, e o fluxo desviado da água gradualmente desapareceu.

A noite já chegava quando Hércules reapareceu:

– Está feito. A população não usa o Alfeu para se abastecer de água, então, não serão envenenadas pelo esterco que a água levou, e isso só durará por pouco tempo. As pedras que coloquei nos diques são pesadas o bastante para serem seguras.

Para um Fileu admirado e satisfeito, o semideus diz:

– Vamos agora até o teu pai e Rei anunciar o fim da minha missão.

O povo já se reunia em alta comemoração pelo fim de sua calamidade, quando Hércules e Fileu retornaram até o trono do Filho do Sol.

O Filho de Júpiter fica diante de um Augias com os olhos injetados de vermelho, e anuncia:

– Rei Augias, um dia você me deu para meu Trabalho, e em um dia ele foi feito. E com minha missão concluída, me retiro.

Augias se levanta do trono, e anuncia irado:

– E se retirará mesmo, charlatão enganador! Sem que eu reconheça tua tarefa, sem levar uma só rês do meu gado, e para nunca mais voltar!

E prossegue, desembainhando a espada em direção a Hércules:

– Acha que eu não coloquei outros espiões para ver teu Trabalho? Não foi você quem limpou meus Estábulos, foi a água! Trapaceiro! Meu gado e meu trono são tão importantes para você para apelar para um truque tão vil?

Fileu se coloca entre eles, e diz a seu pai:

– Pai, o esforço e a inteligência que Hércules utilizou para poder realizar esse feito não podem ser ignorados. Ele tem direito ao menos ao seu reconhecimento, já que ele mesmo abriu mão do pagamento que você o obrigou a se sujeitar.

Augias empurra o próprio filho ao chão e anuncia:

– Hércules, Filho de Júpiter, eu o exilo de meu reino por tentar trapacear contra mim! Se retornar à Élida, serás morto sem consideração a quem quer que seja seu pai! E leve consigo esse moleque, que me traiu ao aceitar depôr a teu favor, provavelmente desejando uma parte do reino que desejava me tomar!

– Pai, não pode fazer isso!

Augias se retira da Sala do Trono guardando a espada, e diz sem olhar para trás:

– Alguém aqui me chamou de “pai”? Não há filho algum meu nesse salão…

O povo da Élida ainda se despedia à distância de Hércules e Fileu, alheios ainda ao decreto de Augias, enquanto rumavam para Micenas.

Um entristecido Fileu quebra o silêncio, e pergunta então para Hércules:

– E quanto a você?

– Este Trabalho será anulado por Euristeu. Mesmo que o seu pai tivesse reconhecido o meu Trabalho, aquela víbora tem a seu favor o fato de que mesmo coagido, aceitei pagamento de um outro Senhor que não ele para realizar a tarefa. Eu sabia desde o princípio que seria assim. Ainda tenho sete tarefas a realizar para o Rei de Micenas.

– E tudo o que você fez foi para nada? – questionou espantado o Filho Exilado de Augias.

– Não. Olhe para trás, Fileu. Vê o contentamento daquele povo, o seu povo? Sente o ar limpo entrando pelas suas narinas? Isto valeu por TUDO – sentenciou Hércules.

– Mas ainda há uma coisa por fazer, jovem Príncipe – disse Hércules apeando do cavalo.

Em frente a Fileu, ele declara:

– Você ficou ao meu lado e à frente da Verdade que teu pai se nega a enxergar, mesmo tendo olhos. Você tem firmeza, e tem uma justiça temperada pela bondade, Fileu. Hoje eu sou apenas um servo e um aprendiz, mas um dia, voltarei a ser um homem realmente livre. Nesse dia, eu cavalgarei a teu lado, retornaremos para a Élida, e entregarei o trono para aquele que merece ser realmente um soberano: VOCÊ. É uma promessa.

Montando novamente seu cavalo, Hércules ordena:

– Siga em direção aos reinos do Norte, que são neutros em relação ao teu pai. Garantirei que o receberão bem. Estude, afie sua espada e tua lança, prepare seu corpo. Quando me ver de novo, será com um exército junto a nós. Adeus, Fileu. Que os Deuses te acompanhem.

Com a gratidão do povo da Élida, e a esperança reacendida no coração de um príncipe, Hércules retornou para Micenas. O Arauto não demorou para anunciar a nulidade do Quinto Trabalho. Hércules nada disse. Apenas repousou e se preparou, enquanto aguardava pelo seu Sexto Trabalho.

1 comentário

  1. hercules

    show de bola, parabéns pelo trabalho diomedes

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