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fev 14 2014

[Os Doze Trabalhos] Compreendendo o Quinto Trabalho

estábulospor DiomedesRJ

UMA MUDANÇA DE FASE

Nesse estágio dos Trabalhos, Hércules deixa de ser um Aspirante para passar a tratar de questões mais profundas. Ele já venceu seu ego, derrotou seu apego, compreende o sentido de seu desenvolvimento, e tem seus instintos sobre controle. Abandonou as ilusões mais primárias que o tornavam manipulável, e atingiu sua liberdade pessoal de decisões. E é no exercício dessa liberdade, que o Quinto Trabalho o desafia.

A TIRANIA DE AUGIAS

Augias é um Esclarecido como Hércules, e como ele, dotado da mesma capacidade de influenciar a vida dos Iludidos. No entanto, não seguiu o caminho do Esclarecimento pleno como ele, por nunca ter recebido a libertação que a Dor ofereceu a Hércules (que buscou o Caminho depois do ato hediondo de ter matado seus próprios filhos). Por sua cegueira, Augias usou sua influência para acumular poder e recursos apenas para si, a despeito do sofrimento que isso causaria a seus associados.

Podemos dizer por isso, que Augias pode ser um Esclarecido de direito, mas não de fato, posto que nunca se libertou da influência de seu próprio ego (Augias é Filho do Sol, e leões costumam estar simbolicamente associados a esse corpo celeste).

Quando Hércules descobre que outros Esclarecidos usam de forma torpe seu direito de nascença, sua indignação é clara. No entanto, o Filho de Júpiter sabe que ainda não tem permissão para fazer as coisas conforme gostaria, por simplesmente não estar preparado para isso, e por estar ligado ao seu dever de aprendizado e redenção. Mesmo que não possa se opôr diretamente a Augias, ele decide não se omitir quanto aos prejuízos que a postura dele causa.

UMA DÁDIVA TRANSFORMADA EM MALDIÇÃO

Augias recebeu de seu pai, Hélios, um presente perpétuo em sua conservação, seu gado imortal. Se os derivados desse rebanho fossem repartidos com o povo, seja o leite (tecnicamente em suprimento infinito), seja uma parte da carne, Élida poderia ser uma nação altamente próspera. No entanto, Augias conserva o gado unicamente para si sem qualquer preocupação com sua manutenção, apenas como um mero símbolo de ostentação, como uma extensão de si mesmo.

Como consequência, o estrume do gado, se acumula, contaminando a todo o reino, com exceção da morada do próprio Augias. Vemos assim a atitude do déspota que acumula para si e para seus eleitos tudo o que o Estado pode lhes proporcionar de bom, deixando para o resto da população arcar com todos os ônus de suas decisões – se puderem.

Esforços individuais e coletivos de pequeno porte de melhorias sociais costumam ser bem recebidos pelo estadista vil, desde que a mesma relação seja mantida: os bônus para si, os ônus para todo o resto. Cedo ou tarde, exigirá a vinculação de tais esforços, para impedir que a população possa olhar ao benfeitor com melhores olhos do que o governante… e ter como descartá-lo, se isso acontecer.

A DECISÃO DE HÉRCULES

O semideus sabe que ao aceitar se sujeitar ao pagamento de Augias, não receberá o reconhecimento social (o Rei Euristeu) que precisa para subir mais um degrau em seu conhecimento e remissão de seus erros. No entanto, se omitir seria negligenciar seu papel como Esclarecido diante de um sofrimento que está ao seu alcance evitar. Hércules então segue sua honra, e aceita a tarefa, mesmo que a consequência lhe seja desagradável.

A LIMPEZA DOS ESTÁBULOS

Hércules sabe que não pode contar com nenhum recurso humano além de si mesmo, ou nenhum auxílio do próprio Euristeu, posto que o déspota deseja que a situação não se altere, e não lhe destinaria nenhum recurso auxiliar palpável a um esforço que não está sujeito a ele.

Mas há uma força disponível que não está sobre o controle de Euristeu: a água.

As forças sociais possuem uma solidariedade normalmente dispersa, voltada apenas para interesses pequenos, e causas imediatas. E essa força emotiva dos Iludidos é aquilo que os tiranos capitalizam para si em seu desejo de conservação de poder. O esforço de Hércules em canalizar as águas é o trabalho de esclarecimento social, firme, planejado e sem afobação, que os Realistas estão capacitados para fazer, direcionando os homens em direção aos coração do problema, e uma vez que esta direção esteja estabelecida, guiar a emoção dos Iludidos a concluir seu trabalho. Sendo assim, não é preciso que o Realismo se espalhe por toda uma sociedade para gerar efeitos palpáveis: bastam que os homens certos estejam corretamente posicionados.

TRAGÉDIA ANUNCIADA

Ao ficar ciente de que Hércules conseguiu depurar o mal social contra o qual se comprometeu, ou ao menos, minimizar seu dano, e, adicionalmente, saber que um de seus filhos o enxergou como benfeitor, Augias se enfurece. Sabemos que existem aqueles servidores do Estado que apenas servem aos seus desmandos por não enxergarem alternativa de atuação correta. Um bom exemplo, visível e palpável, é tudo o que precisam para voltar a servir na direção do povo.

No entanto, o Estado corrupto não perdoa. Tanto o Guerreiro de Júpiter quanto o servidor fiel são declarados párias para o governo, mesmo que o povo os considere heróis. Incapaz de aniquilá-los por sua publicidade, condena-os ao esquecimento.

Fileu perdeu seu tutor e seu poder. Hércules perdeu objetivamente a oportunidade de dar mais um passo para sua liberdade. Mas a porta que se fechou, abriu outras: a da esperança para uma população que havia se acostumado ao sofrimento, e a da renovação das lideranças, por o povo agora veria Fileu como digno.

CONCLUSÃO

Ao consolidar seus primeiros progressos, Um Realista deve resistir a intenção de reformar o mundo Iludido em que vive. Mas, sob pena de se tornar um Mercador de Ilusões, tem o dever e a obrigação de atuar de alguma forma para tornar o mundo em que vive menos obscuro, de usar as primeiras luzes que conquistou para tornar a vida dos homens menos miserável – e em consequência, a vida de todos.

A liberdade que nosso conhecimento proporciona é grandiosa demais para servir apenas a nossos propósitos mesquinhos. Uma parte dela tem que ser repartida com o Mundo, ou irá apodrecer dentro de nós, e nos igualar a todos os que colaboram e colaboraram para a decadência do mundo em que vivemos. Não tem que ser feito sempre de forma gentil, ou sutil. Mas que ao menos as vidas daqueles que nos cercam sejam tocados por algo de bom que adquirimos, quer eles percebam ou não.

Força e Honra.

3 comentários

  1. Daniel

    fantástico, agradeço por compartilhar seu conhecimento,uma verdadeira lição. Força e Honra!

  2. Alisson

    Muito bom Barão Gostei muito de sua analogia dos trabalhos De Hercules com a filosofia de vida da Real.

  3. Eduardo Martins

    Não tenho muitas palavras para expressar minha gratidão por um texto tão altruísta e esclarecedor, mas como todo bom texto de aprendizagem agora cabe apenas aos leitores aplicarem os ensinamentos as suas vidas, valeu pela lição Diomedes.

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